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A história de Jonata

página no ar em 12/03/2006

 

                                                   

 

A noite cálida de Janeiro me mantinha entretido no computador naquela noite de sábado. Olhei brevemente o relógio ao lado do monitor - uma espécie de relógio montada sobre um HD - já era quase onze horas.
    Subitamente o telefone tocou. Olhei o número e vi que era minha sogra. Atendi e conversamos brevemente. Passei o telefone para minha esposa que estava no quarto e fiquei "ligado" na conversa. Uma palavra me chamou a atenção na conversa: "Quebrado".
    Perguntei a minha esposa, assim que ela desligou o telefone: O que aconteceu?
    Ela me explicou: Minha mãe estava fazendo uma caminhada no final da tarde quando, passando por um terreno baldio, ouviu um barulho diferente e, ao olhar, deparou com dois filhotes de cachorro.
    Ficou consternada com a situação de abandono dos dois e os pegou. O casal que a acompanhava a ajudou aceitando a proposta dela de ficar com os filhotes temporariamente até que ela fosse a sua casa pegar uma caixa para nele levá-los.
    A sua intenção era simples: banhar, alimentar e depois entregar os filhotes em alguma avícola perto de sua casa para que alguém os adotasse.
Contudo...,ao soltá-los no chão, percebeu que estavam esfomeadas e intimidados e, além disso, um deles, um peludo de cor marrom clara, não andava, apenas se arrastava.
   Ela ficou desesperada. Será que alguma das crianças da amiga o derrubou ou mesmo pisou? Achou que estava com a pata quebrada... foi isso aí.
    Na hora confesso que o "sangue subiu". Que falta de responsabilidade! Quebrar um cachorro pequeno. E agora? Quem vai querer adotar um cachorro aleijado?
    Sem pensar muito, peguei a lista telefonica e procurei por um veterinário. Achei um. Aliás eu já o conhecia porque tempos atrás ele havia tratado de um periquito que eu machuquei ao derrubar a gaiola. Lembrei que ele fora muito prestativo e pensei: vou ligar para ele.
Não me lembro muito bem, mas creio que olhei a hora de soslaio: 23:50. Nossa, é muito tarde, será que ele me atenderá? Porque não tentar?
Liguei e ele atendeu. Prontamente me mandou ir ao consultório.
   Atravessei a cidade e fui até a casa de minha sogra para pega-lo. Meia hora mais tarde entrei no consultório. Ele se lembrou de mim.
Examinou e deu um veredicto.
- O cachorro está de fato com a perna fraturada, mas está estranho. É mais seguro tirar um raio-x para verificarmos os detalhes. Como é mesmo o nome do cachorro?
- Não sei, acabei de pegá-lo na rua... respondi atrapalhado. Ele me olhou desconfiado. Não o recrimino.
    Rapidamente pegou o receituário e começou: O exame visual revelou, além da fratura, um alto grau de anemia vista pelos olhos e gengiva. Provavelmente estaria com vermes pois estava no mato. Além disso, eram visíveis "montes" de carrapatos e pulgas.
    A boa notícia: ao apertar suas patas traseiras, uma por vez, teve reação - indicando que havia sensibilidade e isto garantia o não comprometimento da coluna.
Mas é sábado... isto é, madrugada de domingo. Onde vamos radiografá-lo ?
    Ele me deu algumas indicações, aplicou remédio para pulgas e carrapatos e passou uma lista de remédios e cuidados e pediu que assim que o raio-x estivesse pronto que o procurássemos.
    Agora o tempo era o principal inimigo. Quanto tempo e em que condições ele chegara aquele terreno e... ele era muito pequeno... sobreviveria?
    Naquela noite o tempo não passou. Passamos a noite em turnos de 2 horas revezando na alimentação que aplicamos com seringa diretamente na boca. Ele era muito pequeno e não conseguia mamar, porém uma mistura rica em proteínas com leite e fígado batida no liquidificador ele sorvia vigorosamente. Já era claro... ele queria viver.. lutava por aquilo. Agora eu tinha que fazer a minha parte.
   No dia seguinte, domingo, fomos á clínica de raio-x após o almoço. Por sorte, naquele dia encontraram a operadora do raio-x que estava de passagem na cidade, para que ela fizesse os raios-x.
   O resultado derrubou minhas esperanças. A moça do raio-x apenas nos mostrou rapidamente, porém vi manchas enormes no abdômen. Aquilo não eram manchas de gases, tenho algum conhecimento. Era ruim.
    Mais no final da tarde fomos ao veterinário novamente com os raios-x. O ambiente era claramente melhor. Ele agora parecia mais confiante em perceber nosso esforço. Examinou os raios-x e ficou impressionado. O que fazer?
    Ele viu, em primeiro lugar que a fratura não era na perna mas na pélvis. Nada pode ser feito senão esperar. Em quinze ou vinte dias cicatriza sozinho e ele deve voltar a andar.
    Quanto as manchas, estas eram visivelmente de "coisas" sólidas e não músculos ou algo do tipo. Então ele me olhou e disse:
- Podemos tentar algum tipo de óleo mineral.
Senti que aquilo era a minha prova final... Respondi:
- Doutor, você está brincando não é? Daquele tamanho, aquilo não sai nem pela frente e nem por trás do cachorro!
- A outra solução seria uma cirurgia para remoção. Respondeu-me.
    Pensei: Deixar assim é assinar o atestado de óbito. Ele morrerá em dias. É minha decisão que mudara os fatos.
Respondi quase sem pensar:- Doutor, quanto custa ?
   Ele então pegou um catálogo de valores. Gelei. Agora é que estou em uma fria. Será que poderei pagar? Então ele me olhou e disse:
- Duzentos e cinqüenta reais.
Uau! O sangue voltou a circular. Pareceu uma eternidade a consulta.
- Tudo bem, eu pago, quando o senhor pode operar?
    Acertamos verbalmente na terça-feira, na qual ele confirmaria por telefone. Colheu amostras de sangues que enviei á um laboratório para avaliação...
    Minha frustração foi enorme com o resultado. Anemia profunda... Talvez a temível "doença do carrapato" geralmente mortal. E a operação? Pensei.
    Felizmente tudo correu bem. Terça-feira no final da tarde fui buscá-lo. Ele já havia acordado e estava animado.
O médico autorizou sua saída com uma lista enorme de medicamentos e recomendações.
Saí mais tarde com minha esposa e fomos ao centro deixando minha sogra e minha filha tomando conta dele, que drogado, ainda dormia tranquilamente.
    Poucos minutos depois minha filha me ligou no celular em pleno movimento na rua.
- Pai! O cachorro está latindo e rosnando!!
- Que é isso filha, ele está só sonhando. Ele está se recuperando...
    Voltando para casa, conversei com todo mundo pedindo calma e tranqüilidade.
    É,... mas minha filha estava certa. Tarde da noite ele recomeçou. Mas na verdade não estava rosnando e latindo... estava em convulsão.

Literalmente voamos ao médico. Ele chegou em convulsão e o médico preocupado aplicou-lhe uma injeção e nos acalmou. Explicou que era melhor observar e ver se havia alguma anormalidade que lhe passara em branco, mas que suspeitava que a verminose poderia estar causando aquilo.
   No dia seguinte estávamos de volta com ele no médico por causa de uma nova convulsão e então ele ficou com o cachorro por dois dias e o tratamos com Gardenal, um medicamento para convulsão.
    Finalmente a verminose cedia e as convulsões cessaram. Ele se recuperava lentamente da fratura e agora outro problema: Ele não respondia a nenhum chamado, parecia desligado.
   Um novo exame solucionou o mistério: ele é ou está completamente surdo.
    O médico nos deu uma esperança dizendo que aquele estado poderia ter sido causado pela verminose absurda que ele tinha.
    O tempo passou e lentamente ele passou a responder estímulos: Livre dos vermes, agora ele ouvia.
    As coisas já estavam acomodando quando percebemos que ele tinha uma espécie de caroço no abdômen: era uma hérnia disse o médico, os pontos da cirurgia não resistiram e abriram.
- Podemos operar? perguntei esperançoso.
- Não agora, se ele perder sangue com esse nível de anemia ele morre.

Saímos sem saber como fazer.
    Decidido a não perder, fui ao centro da cidade e comprei seis munhequeiras - é, dessas de jogador de tênis - ajustáveis e ligando duas, o tamanho dava para pôr nele como uma cinta ortopédica para segurar a hérnia até podermos operar.
    Ao urinar ele as molhava e nós monitorávamos trocando a cinta. Assim foi até que o exame de sangue permitiu a cirurgia corretiva. Esta também foi paga, mas o médico, já envolvido demais na luta, não quis cobrar.  Até ele estava engajado na luta. Seu argumento foi que todos estavam lutando e ele queria dar a sua parte também. Afinal, o cachorro estava lutando, ele queria viver.
Cachorro? Qual o nome dele afinal?

- Estávamos na cozinha de casa brincando com minha filha que é fã incondicional do Korn, uma banda de rock. O vocalista é o Jonathan Davis. Jonata é uma boa idéia. Disse brincando.
    Pegou e ficou. Jonata é o nome do cachorro.
    A recuperação do Jonata de sua segunda cirurgia foi rápida e em alguns dias ele perdeu o "cinto" de faixa e esparadrapo que eu trocava pessoalmente seis ou oito vezes ao dia porque caia, sujava ou ele urinava nela.

    Hoje, completamente curado, eu rio quando lembro de tudo que passamos. Olhar o Jonata correndo como um louco só me faz sentir bem, pensando que ele queria viver e eu ajudei, de alguma forma, para que ele sobrevivesse.
    Sinto mais isso na pele quando penso que ele apenas morreria pela verminose, anemia e as dores disso. Pior ainda, abandonado. Creio que ao menos eu poderia resgatar sua dignidade.
    Agradeço a todos, que sem pestanejar, ajudaram o Jonata. Minha esposa, que juntos, varamos madrugada afora alimentando e trocando-o dias e dias sem fim permitindo que sua vida fluísse.
    A troca, oferecida em festas carinhosas sem fim valeram cada centavo e esforço.
    Claro, ainda resta uma pergunta que deve ser respondida: Porque tanto esforço apenas por um cão?
    Não é bem assim. Eu tenho em minha vida uma postura que faço questão de deixar claro a todos que conheço: responsabilidade.
    Eu nunca fui obrigado a fazer o que fiz, mas, naquele momento, senti que ele era a minha responsabilidade, apenas isto, nada mais.
    Eu sei que jamais as outras pessoas me culpariam se eu mandasse sacrificá-lo... era muito mais fácil. Não pretendo salvar o mundo porém, sempre que decido fazer alguma coisa, não sou capaz apenas de desistir, isso é que não vale a pena.